Sinal de Menos #15, vol. 1

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Difícil encontrar uma reflexão que resuma de maneira mais justa e perfeita o estado atual do mundo e o tema principal desta edição de Sinal de Menos do que esta passagem d’O capital de Marx:


O capital, que tem tão “boas razões” para negar os sofrimentos das gerações de trabalhadores que o circundam, é, em seu movimento prático, tão pouco determinado pela perspectiva do apodrecimento futuro da humanidade e seu inexorável despovoamento final quanto pela possível queda da Terra sobre o Sol. Em qualquer fraude no mercado de ações, todos sabem que um dia a tempestade deve cair, mas todos esperam que o raio atinja a cabeça do próximo, após ele próprio ter colhido a chuva de ouro e o guardado em segurança. “Après moi le déluge!” é o lema de todo capitalista e toda nação capitalista. O capital não tem, por isso, a mínima consideração pela saúde e duração da vida do trabalhador, a menos que seja forçado pela sociedade a ter essa consideração. Às queixas sobre a degradação física e mental, a morte prematura, a tortura do sobretrabalho, ele responde: deveria esse martírio nos martirizar, ele que aumenta nosso gozo (o lucro)? De modo geral, no entanto, isso tampouco depende da boa ou má vontade do capitalista individual. A livre-concorrência impõe ao capitalista individual, como leis externas inexoráveis, as leis imanentes da produção capitalista.


Depois de mim, o dilúvio! – é esta frase atroz quase convertida em automatismo mental que segundo Marx compele o sujeito capitalista a agir da maneira mais cínica, indiferente, como se não houvesse amanhã. É isso que converte o mundo em mero recurso, como se tudo tivesse de estar livre e disponível para servir a essa lógica sacrificial de trabalho e acumulação infinita. A pandemia da Covid-19 e a situação de guerra na Ucrânia vêm explicitando tais pressupostos de modo cristalino.


O bolsonarismo parece dar uma torção nessa reflexão quando acelera de modo voluntário esse processo de libertação de todo potencial destrutivo da abstração capitalista. Ele leva o “gozo” a outro patamar promovendo o extermínio em massa: para garantir que a economia não parasse, ou que a acumulação pelo menos empatasse com o supostamente acumulado. Ele armou o cadafalso das mil, duas, e por que não, três e quatro mil mortes diárias (pico de Abril de 2021). Estabeleceu a normalidade do genocídio e do ecocídio. Qual era sua meta original: quinhentos mil, um, dois milhões de mortos? E tudo ocorrendo como um processo “natural” inevitável? Razão ou insanidade? Seja como for, o Brasil dos atuais 660 mil mortos e 29,8 milhões de infectados (sem somar o total de subnotificação e outras falcatruas) pôs-se na vanguarda do morticínio, superando o número de vítimas da guerra ao terror dos EUA, estimada precisamente em 600 mil. Para piorar essa situação irracional, uma parte da crítica de “esquerda” (brasileira e estrangeira, especialmente alemã) tem participado do obnubilamento geral como que fazendo coro com o negacionismo antivax, caindo por vias diretas ou indiretas numa crítica regressiva, que corta as mediações particulares e concretas dos problemas, supostamente para abrir espaço para uma crítica “radical” das estruturas gerais do valor, do patriarcado, da ciência e da tecnologia, mais ou menos colocados em linha reta de continuidades arbitrárias e identidade total entre forma social e realidade material. Às vezes, essa iconoclastia resvala, contudo, numa crítica indeterminada e arrasadora contra a própria ciência e a razão, numa versão anti-aufklärer muito próxima do tradicionalismo religioso e do romantismo, de Heidegger e do pós-modernismo, dos novos animistas e primitivistas antimodernos a la John Zerzan. É surpreendente que essa iconoclastia abstrata conviva com a constante asserção sobre a crise climática – um alerta e um diagnóstico feitos pelas ciências naturais matematizadas.

A guerra preventiva da Rússia contra a Ucrânia de certo modo completa esse quadro de irracionalidades tocado pelo estado de exceção mundial em que as contradições do capital não são “superadas” mas explodem a estruturação “pacífica” da política, da diplomacia e do “doce comércio” mundial, quando os dois blocos de poder nuclearizado finalmente concretizam suas ameaças longamente cultivadas, afirmando-se como “nações autodeterminadas” na crise falimentar da globalização e sua concorrência mortífera. Nesses meses ficamos mais próximos do “apodrecimento final da humanidade e do despovoamento final” do planeta sob um grande sol artificial, desconhecido dos tempos de Marx: as várias frentes da guerra precipitam uma crise mundial de proporções ainda desconhecidas, em que não está descartada a possibilidade de uma guerra total, com o uso de armas químicas, biológicas e nucleares (o chamado eufemicamente “uso tático”).

Uma posição firme contra a invasão da Ucrânia não deveria, a nosso ver, ser confundida com um apoio à OTAN ou aos batalhões neonazistas instalados no país, enquanto se posiciona também contra a esquerda belicista dita “anti-imperialista”, cujos argumentos defendem, por meio de falácias (“tu quoque” e “whataboutism”), o mesmo poder arbitrário e ilegal das intervenções dos EUA e da OTAN em países periféricos como Iraque, Afeganistão e Líbia, enfiando-se de cabeça em sua cachaça politicista, esquecendo todas as consequências materiais catastróficas da guerra, a destruição do país e das populações, a nova crise de refugiados, o aumento do custo de vida e o empobrecimento geral dos mais vulneráveis em nível local e mesmo global. Essa esquerda sonhadora enxerga na indústria bélica e nos gasodutos russos, tanto quanto na nova rota da seda chinesa e na suposta desvinculação do dólar como moeda mundial, a reconstrução imaginária de um novo bloco “comunista” sinosoviético.

Em ambos os casos, temos o terror mais ou menos oculto do Capital transformandose em formas claras de terrorismo de Estado. O capitalismo reafirma suas leis de concorrência e espoliação selvagem, trazendo à tona a verdade brutal de seu processo civilizatório e da sua forma de sujeito autocrático. A destruição da culpa, a fuga acintosa de toda responsabilidade ética pelas ações exterministas e ecocidas do governo Bolsonaro, significam um nível de gestão autoritária, altamente militarizada e antipopular, e o cancelamento dos processos de socialização e simbolização que formam sujeitos singulares, capazes de mudar o rumo dos processos. É a condenação à morte dos sujeitos agora também no nível ético-político, na acepção mais crítica do termo. Enquanto no processo de desnazificação na Alemanha pensadores como Adorno, Sartre, Jaspers e outros procuram diagnosticar para combater suas raízes históricas, diferenciando as culpas e como elas podem e não podem ser demandadas dos agentes morais e políticos no continente arrasado, no Brasil temos um esforço gigantesco de des-culpabilização. Noutro nível, as ameaças expansionistas recíprocas de OTAN e Rússia tendem a funcionar como que no modo “piloto automático”, no plano de ações e reações previstas desde o fim da guerra fria e a afirmação do mundo unipolar, com a singularidade de estarem agora sob a cobertura ideológica de combater o “governo autocrático” e o “país de oligarcas” associado à China, ou de “desnazificar” a Ucrânia e garantir seu espaço de influência em todo o Leste Europeu e Europa. Gestores-carniceiros dão mostras de não ver nenhum problema em decidir pela morte por mistanásia de três quartos dos quase 660 mil mortos pela covid-19, tanto quanto na Europa alegam apenas seguir as determinações “objetivas” ou autodeterminações “nacionais” e fazer aquilo que se espera de impérios decadentes mas detentores de um arsenal nuclear que garante a “legitimidade” de qualquer tipo de ação terrorista para manter seu poder. No fundo, confessam-se como “agentes” da Bomba. No colapso social e ambiental divisado para este século, seus líderes terão sempre nela sua última desculpa.

Este então o panorama de fundo deste novo número de Sinal de Menos, que procura abordar de modo variado e especificado a “crítica do sujeito burguês ou moderno”, criando uma espécie de dossiê temático. Panorama que se inicia, por isso mesmo, com a ENTREVISTA com o psicanalista Tales Ab’Sáber, que conversa sobre assuntos variados de sua trajetória plural, das temáticas abordadas em seus livros e de sua interpretação do lulismo e do bolsonarismo. Gostaríamos muito de agradecer ao autor o aceite do convite, o rigor das respostas longas e meditadas… e a sua paciência de aguardar a publicação depois de um longo intervalo.


Os três textos que se seguem à entrevista – “DEMOCRACIA E AMOR”: um mergulho no espetáculo à brasileira, de Diogo Dias; UM PAÍS ENTRE (uma crítica curta de um curta-metragem), de Francisco Bosco; e O LABIRINTO FASCISTA E A MONSTRUOSA COLEÇÃO DE MERCADORIAS, de Tiago Ferro – dialogam com os trabalhos e as perspectivas de Tales Ab’Sáber, lançando luzes sobre as formas de dominação política típicas do “labirinto bolsonarista” e do nosso “espetáculo à brasileira”.

O dossiê sobre o sujeito e sua crítica especificada concretiza-se finalmente através da investigação de materiais literários. Em PEQUENAS E GRANDES ROBINSONADAS (Da proto-história da subjetividade ao declínio do sujeito autocrático), Cláudio R. Duarte busca realizar, por meio das pistas lançadas pelo Excurso I da Dialética do Esclarecimento, de Adorno e Horkheimer, uma leitura cerrada de obras como a Odisseia, o Robinson Crusoé, contos e romances de Machado de Assis e, enfim, a prosa literária de Kafka e Beckett. A perspectiva genética do “sujeito autocrático” da modernidade, meramente esboçado e prenunciado em Ulisses, completa-se na primeira robinsonada do livro de Defoe, embora seja ultrapassada pelas figuras machadianas de um narrador volúvel e impostor que converte tudo em objeto de sua manipulação e escárnio, e por fim desmontada pela “robinsonada total”, como dirá Adorno, das personagens de Kafka e Beckett, em cuja errância e resistência à mobilidade pode-se interpretar o processo de proletarização, marginalização e dissolução do indivíduo isolado típico do romance burguês.


Em UMA POÉTICA DA ABSTRAÇÃO – Hipóteses sobre Jorge Luis Borges – William Augusto Silva apresenta uma leitura crítica do escritor argentino mais exemplar, buscando interpretar como a forma abstrata da prosa borgiana condensa em si processos sociais atrelados às condições de urbanização, massificação e mercantilização geral da vida, bem como à posição de classe singular de escritor periférico que se reconhece nesse lugar ambíguo. Dando sequência a esses esforços na interpretação de um outro grande escritor latino-americano, Cláudio R. Duarte estuda, em JUAN CARLOS ONETTI: A PROSA DO “MUNDO LOCO”. Ou, proletarização e subjetivação na periferia capitalista, as formas como o autor uruguaio Onetti tratou a questão da subjetivação da vida pobre, marginal e periférica através da decadência dos setores médios nos anos de crescimento e rápido declínio do cone sul na “desgraça” do subdesenvolvimento (de 1930 a 1960) em sua criação ficcional da cidade de Santa María. Em INSÔNIA: A “COLEÇÃO DE ENCRENCAS” DE GRACILIANO – o mesmo autor persegue uma hipótese semelhante para o caso brasileiro, investigando na trama formal os rastros do processo de modernização conservadora, decadência do patriarcado rural e da formação negativa ou bloqueada do sujeito numa coletânea de contos de Graciliano Ramos.


O volume 1 deste número 15 da revista termina com duas resenhas de Felipe Silva Terto: a primeira sobre livros de autores vinculados estreitamente à crítica do valor-dissociação (SOBRE OS DESCOMPASSOS DE UM CADÁVER – Um diálogo entre O homem sem qualidades à espera de Godot e Crítica ao feminismo liberal); a segunda sobre os 70 anos de uma obra maior de Adorno (“SABER QUE NADA SE É”. Ler
Minima Moralia 70 anos depois
).

A capa desta edição em dois volumes foi criada por Felipe Drago baseando-se na obra de Vhils, que é um jovem artista plástico português muito talentoso. A obra trabalha com as marcas e as ruínas do tempo histórico acumuladas na paisagem. Assim, nessa composição Felipe utilizou uma obra feita a partir do descascamento da parede de uma casa de uma pessoa que foi removida no morro da Providência no Rio de Janeiro para dar lugar a um teleférico na época das obras da Copa do Mundo do Brasil. O trabalho artístico de construção a partir desse descascamento e figuração é capaz de expressar formalmente esse processo contraditório de construção e demolição, bem como a resistência dos indivíduos a partir da memória coletiva. Além disso, o tema da dissolução e da destruição atravessa tudo. O trabalho de destruição expresso na foto expõe os rastros da história, o trabalho morto e da morte, os mortos, suas motivações e destinos, sugerindo a guerra e as ruínas acumuladas pelo capital, que parece de fato se encaminhar para o fim do mundo.

Apesar do longo intervalo, por motivos de força maior e outros superiores à nossa capacidade de trabalho e organização afinal limitada, esperamos que os dois volumes sejam bastante lidos e discutidos pelos nossos leitores, seja ao vivo, no lançamento, seja na seção de discussão dos textos aqui publicados.

Março de 2022.

Sumário #15, vol. 1

Editorial

Entrevista com Tales Ab’Sáber

“Democracia e Amor”
Um mergulho no espetáculo à brasileira
Diogo Dias

Um país entre
Uma crítica curta de um curta-metragem
Francisco Bosco

O labirinto fascista e a monstruosa coleção de mercadorias
Tiago Ferro

Pequenas e grandes robinsonadas
Da pré-história da subjetividade ao declínio do sujeito autocrático
Cláudio R. Duarte

Uma poética da abstração
Hipóteses sobre Jorge Luis Borges
William Augusto Silva

Juan Carlos Onetti – A prosa do mundo louco
Ou, proletarização fracassada e subjetivação periférica
Cláudio R. Duarte

Insônia
A “Coleção de Encrencas” de Graciliano
Cláudio R. Duarte

Sobre os descompassos de um cadáver
Um diálogo entre O homem sem qualidades à espera de Godot e Crítica ao feminismo liberal
Felipe Silva Terto

“Saber que não se é nada”
Ler Minima Moralia 70 anos depois
Felipe Silva Terto

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