Chegamos à oitava edição de nossa Sinal de Menos, que tem capa de Felipe Drago. Aqui temos, pela primeira vez, contribuições vindas de Portugal: a fotografia da capa, obra de Paulo Martins inspirada no editorial da Sinal de Menos #1, e duas traduções de Moishe Postone, de autoria de Nuno Machado. Postone é professor na Universidade de Chicago, um dos pioneiros da chamada “crítica do valor”, com pouquíssimo material traduzido para a língua portuguesa.
Abrimos a revista com a entrevista de Postone, originalmente concedida à revista inglesa Solidarity, onde se discute a relação da esquerda com o antissemitismo. Em seguida, Postone, em seu “Antissemitismo e nacional-socialismo” – um ensaio de referência mundial nos estudos sobre o tema, mas ainda inédito em português -, trata de buscar as chaves da relação imanente específica entre estes dois fenômenos e o fundamento social moderno da forma-mercadoria e do trabalho abstrato.
Os três textos seguintes têm como fio condutor comum o sentido da urgência da mudança histórica, representado pela referência ao Walter Benjamin das “Teses sobre o conceito de história”. O texto de Daniel Cunha, “O Antropoceno como alienação: crítica da economia política do aquecimento global”, conceitua a destrutividade do capitalismo a partir da lógica da mercadoria, e mostra como o metabolismo social falho com a natureza resulta na globalização da poluição. Procura demonstrar, ainda, como esta globalização da poluição escancara o fetichismo e a irracionalidade do sistema capitalista em diferentes aspectos da vida social, que se estendem dos modelos matemáticos da mudança climática às campanhas publicitárias que fazem referência à catástrofe ambiental, passando pelos processos tecnológicos.
Em “O capitalismo como estado de exceção permanente”, Cláudio R. Duarte propõe uma reflexão sobre o conceito de estado de exceção como a norma do capitalismo administrado contemporâneo. Para isso lança novas perspectivas sobre a ideia de “mundo totalmente administrado” dos frankfurtianos e busca, a partir de Marx, desdobrar dialeticamente a lógica do estado de exceção da própria lógica do Capital, enquanto produção “desmedida” e “sem limites” de mais-valia. Por fim, o autor experimenta tecer mediações entre o capitalismo como “perversão objetiva” e as variantes-tipo de sujeito moderno “fora da norma”, partindo do funcionamento perverso e/ou psicótico da Lei e do Supereu no mundo administrado, o qual inverte a Lei em uma injunção superegoica de gozo ilimitado, reduzindo os sujeitos a instrumentos de gozo do Outro; um traço fundamental que a literatura de Kafka, Machado de Assis e Alejo Carpentier permitiram ler ao longo do século XX.
Fechamos a seção de artigos com o texto de Raphael F. Alvarenga, “Severas alegrias da lógica: Brecht, didatismo e dialética”, que mostra como, a partir de peças didáticas, o dramaturgo alemão procurou dotar de determinação objetiva a potência negadora contida de forma indeterminada no niilismo das peças da juventude, reorganizando-a no interior de uma reflexão estética mais consequente, ligada à luta anticapitalista. A força e o interesse de sua obra derivam em grande medida dessa disposição a alterar estrategicamente, no plano da linguagem (poética e cênica), certas regras do jogo das forças sociais a fim de torná-lo mais dinâmico e produtivo, buscando continuamente na experiência artística aquilo que no mundo presente faz brecha, como que anunciando o advento de algo qualitativamente novo.
A revista fecha com a tradução de duas pequenas parábolas de Kafka: Nosso caminho e Os segredos do poderoso. A totalidade se expressa enigmaticamente como o vazio e a confusão do presente – legíveis criticamente, talvez, caso levarmos em conta o que se deposita no fundo da forma de regulação social imposta pelo estado de exceção mundial.
Fevereiro de 2012
[-] Sumário #8
Editorial
Entrevista
Sionismo, antissemitismo e a esquerda
com Moishe Postone
Artigos
Antissemitismo e nacional-socialismo
Moishe Postone
O Antropoceno como alienação
Crítica da economia política do aquecimento global
Daniel Cunha
O capitalismo como estado de exceção permanente
Cláudio R. Duarte
Severas alegrias da lógica
Brecht, didatismo e dialética
Raphael F. Alvarenga
Traduções literárias
Nosso caminho e Os segredos do poderoso
Franz Kafka
4 Comentários
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