Sinal de Menos #19

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A presente edição de Sinal de Menos reúne intervenções que, por caminhos distintos, iluminam uma mesma constelação de problemas do capitalismo contemporâneo: o colapso estrutural das formas de reprodução social, a erosão das mediações políticas e culturais tradicionais e as novas modalidades de subjetivação autoritárias que emergem num mundo de expectativas nulas ou esvaziadas.

O sentido do que vem por aí no mundo é a recomposição reacionária que já não precisa se esconder. O que se normaliza no plano global não é apenas um novo ciclo eleitoral de direita e extrema direita, mas a forma política própria de um capitalismo que abandona a própria promessa de integrar e proteger. O regime de força nos EUA e no Norte “trumpizado”, sob a gestão ostensiva dos interesses fósseis especulativos e militarizados, encontra sua contraparte molecular na nova era da comunicação: as redes e as big techs operam quase como partido transnacional da mercadoria, modulando afetos, sequestrando a atenção e transformando o processo eleitoral em engenharia de consenso do capital. Da eleição de Trump ao avanço equilibrista de Milei, passando pelas direitas liberais autoritárias que se multiplicam na América Latina, o que vemos é uma espécie de “espírito” evaporado e como que subsumido à lógica mercantil das plataformas e do tempo adiado, que organiza o consentimento para a espoliação como se fosse preferência de consumo.

As ressalvas, contudo, são sintomáticas, e o espírito da crítica não deveria aqui esmorecer. O quase empate na Colômbia (tanto como as tensões no Equador), a revolta popular na Bolívia, o cenário brasileiro mais do que nunca equilibrista etc. revelam menos uma vitalidade democrática do que uma exaustão. São o reflexo eleitoral de sociedades que vivem a evidência da crise do trabalho e que põem em questão a própria operação de gestão da população excedente, no momento em que o mercado já não consegue se ofertar claramente como horizonte para todos. A esquerda, entretanto, patina nesse fundamento negativo da falta, reprimida pela imposição política da escassez – na verdade, do excesso de dinamismo sem rumo. Sem estratégia contra-ofensiva para a economia, sem tática de combate e comunicação social que rompa o cerco algorítmico, sem autoformação que recuse a miséria do presente, ela termina refém do calendário eleitoral, ainda mais em tempo de Copa do Mundo espetacular, que a todos entretém e distrai com o futebol-negócio.

No Brasil, essa patinação adquire contornos próprios. A esquerda institucional mira um alvo rebaixado — vencer a eleição —, mas se recusa a encarar o vazio que se avizinha. O lulismo, como forma de gestão do possível já-sempre-impossível, deu o que tinha e não tinha a dar, e o fim da Era Lula se anuncia menos como tragédia súbita, do que como rápido declínio de uma “hegemonia às avessas” que se apoiou na conciliação com o extrativismo devastador, o rentismo, espécie de (im-)pacto para contenção de danos e do próprio antagonismo de classe. Resta um progressismo sem rumo, que se agarra a estatísticas “otimistas” enquanto o endividamento das famílias se aprofunda, as escolas se militarizam e se privatizam, a pejotização avança e a superexploração se torna o pressuposto do ajuste. Em vez de tensionar o debate para o fim da escala 6×1, medidas paliativas e mais fundos para combustíveis fósseis (em plena crise climática), latifundiários e banqueiros, além da internalização do neoliberalismo mesmo em suas formulações teóricas. A extrema direita, por sua vez, ocupa o vácuo com a ideologia do sujeito suposto esperto nos negócios, oferecendo aos pobres o realismo cínico e a  miragem do empreendedorismo como saída da crise.

A ferida autoritária ou neofascista não se cura com votos e nem apelos ao liberalismo pseudo-humanitário que é ele próprio produtor das suas condições de possibilidade; ela é o próprio modo de representação social de um capitalismo que, em seu limite histórico, já não consegue cercar, excluir e destruir sem, ao mesmo tempo, gerar a resistência que teima em nascer das brechas — como nos mostraram, mais uma vez, os povos originários, o movimento estudantil e a luta das mulheres por orçamentos para combate à violência de gênero, novas tipificações de abuso e o PL da misoginia.

Os artigos reunidos neste número buscam escavar esse solo e o seu subsolo: a normalização da extrema direita e a ascensão do nacionalismo de desastre, o sequestro da comunicação pelo capital de plataforma, a crise orgânica da esquerda diante de uma lógica da desintegração e do colapso que continua a exigir esforços para a sua autorreflexão crítica.


A capa de FELIPE DRAGO procura traduzir essa angústia de fundo, projetando a fantasia social que concerne a todos. Que o leitor aprecie sua expressão peculiarmente irônica.

Abrimos o volume com A ascensão do “nacionalismo de desastre”, uma entrevista exclusiva com RICHARD SEYMOUR, membro-fundador do coletivo Salvage (https://salvage.zone), autor, entre outros, de Disaster Nationalism (2024) e The Disenchanted Earth (2022). Nela, o autor discorre sobre o que chama de “nacionalismo de desastre”: uma resposta política às crises do capitalismo neoliberal, alimentada pelo ressentimento, pela perda de status e pela erosão dos laços de solidariedade. Para ele, a extrema direita mobiliza essas frustrações por meio de narrativas conspiratórias e das redes sociais, que amplificam afetos e feridas de casca “fascista” e que facilitam novas formas de organização autoritária. Seymour argumenta ainda que o fracasso do progressismo neoliberal e socialista (recontando os bastidores de Corbyn no Reino Unido), abriu espaço para esse avanço e defende que a esquerda deve reconstruir modos de associação, comunicação e autoformação, disputar a dimensão emocional da política e aproveitar momentos de crise para fortalecer alternativas democráticas e emancipadoras.

Na seção de ensaios, começamos com Da crise permanente ao colapso social: limites da categoria crise e necessidade de uma nova formulação histórica, de GABRIEL TELES, que argumenta que a categoria marxista de “crise” tornou-se insuficiente para compreender o capitalismo contemporâneo. Segundo o autor, a crise deixou de se manifestar como uma ruptura excepcional seguida por processos de recomposição e passou a constituir a própria normalidade da reprodução social. Para nomear a nova configuração histórica, propõe o conceito de colapso social, entendido não como catástrofe súbita, mas como o funcionamento contínuo da sociedade através da deterioração progressiva de suas bases econômicas, políticas, ecológicas e subjetivas. O artigo conclui que compreender o presente exige deslocar a análise da crise como evento para o colapso como forma histórica de reprodução do capitalismo. 

Em seguida, em O conhecimento que não nos toca: ou, ciência sem conhecimento como contradição sistêmica da abstração social, SILAS FERRARINI FURTADO examina a transformação contemporânea da ciência e da educação sob a lógica da valorização do capital. Dialogando com autores como Marx, Robert Kurz, Guy Debord e a crítica do valor, o autor argumenta que a chamada “sociedade do conhecimento” é, na realidade, uma sociedade da informação, marcada pela redução do saber a dados processáveis e funcionalmente úteis à reprodução econômica. Nesse contexto, ciência, universidade e escola perdem progressivamente sua autonomia e sua capacidade formativa, subordinando-se a imperativos de eficiência, mensuração e controle. O artigo sustenta que a expansão dos fluxos informacionais não produz maior conhecimento da realidade social, mas antes uma consciência desistoricizada e reificada, incapaz de compreender as contradições do capitalismo contemporâneo. A abundância de informação aparece, nessa perspectiva, como o correlato da crescente erosão do conhecimento crítico.

Em A digitalização do “mundo como alvo”: contribuições à genealogia da militarização contemporânea, CIAN BARBOSA propõe uma contribuição à genealogia da militarização apresentada por Paulo Arantes a partir da hipótese de que a digitalização realmente existente não constitui um fenômeno autônomo em relação à lógica militar, mas é seu desdobramento histórico e estrutural. Partindo da noção de “mundo como alvo” desenvolvida por Arantes, articulada ao conceito de Endzeit de Günther Anders, o artigo traça uma genealogia da digitalização desde a Segunda Guerra – com a criptografia, o desenvolvimento do computador e a bomba atômica como momentos fundadores – passando pela cibernética, pelo conexionismo e pelo financiamento militar das inteligências artificiais, até chegar nos usos contemporâneos do aprendizado profundo em sistemas de armas autônomos. O argumento central é de que existe uma homologia estrutural entre a noção de targeting na genealogia da digitalização, passando pelo marketing digital, até o kill targeting em sistemas autônomos de armas letais (LAWS). Essa homologia não é meramente analógica, mas estrutural, revelando a constituição da digitalização com aspecto central na constituição do mundo como alvo.

Em Alarme geral do microfascismo, ou, Os avatares da nova phantasia fascista, CLÁUDIO R. DUARTE dialoga com o novo livro de Vladimir Safatle, A ameaça interna (Psicanálise dos novos fascismos globais), interpretando seu título e os sentidos do que o filósofo brasileiro denomina “fascismo estrutural”, “fascismo restrito” e “fascismo generalizado”. Trata-se de produzir uma crítica imanente desta “hipótese fascista” geral, ou seja, analisar algumas inconsistências e contradições internas pinçadas da exposição do livro, julgando-as a partir de seus próprios pressupostos históricos, teóricos e metodológicos, que aliam marxismo, psicanálise, teoria crítica frankfurtiana e o pensamento pós-estruturalista francês. Uma possível “síntese” visa desdobrar os pontos fortes da obra, e que emergem da lógica da desintegração social global captada pelo texto, desviando-se das fantasias e linhas de fuga mortíferas da “indústria do apocalipse”.

No artigo seguinte, O desentendimento é a política: por uma reabilitação da luta de classes, CIAN BARBOSA e DOUGLAS RODRIGUES BARROS analisam a atualidade da noção de política em Jacques Rancière, e defendem que a política não se reduz à gestão das demandas, mas consiste na irrupção do litígio que rompe a ordem de distribuição dos lugares. A subjetivação política é, nesse sentido, fundamental e ocorre quando aqueles que não têm parte se afirmam como sujeitos, reconfigurando o campo do comum. Articulando reverberações e diálogos com autores como  Frantz Fanon, Achille Mbembe, Alain Badiou e Slavoj Žižek, argumenta-se que a luta de classes não corresponde a uma identidade fixa, mas a um princípio de conflito que excede as formas estabelecidas de reconhecimento. Por fim, critica-se o paradigma do consenso e o identitarismo, compreendidos como formas de neutralização do conflito, defendendo tanto a atualidade de Rancière, quanto a centralidade da luta de classes como princípio de desestabilização da ordem social.

Em Habermas: uma anti-homenagem, RAPHAEL F. ALVARENGA reconstrói uma linha de ruptura no projeto do filósofo alemão recentemente falecido, tomando por fio condutor a tensão entre a racionalidade comunicativa enquanto promessa emancipatória e sua contenção institucional. O ensaio reconhece a força interna dos argumentos habermasianos, especialmente sua crítica a Heidegger, o núcleo potencialmente “anarquista” da ação comunicativa e a importância da abertura reflexiva da racionalidade moderna. Contudo, sustenta que esse potencial crítico acabou sendo progressivamente reconfigurado em termos de estabilização normativa, na qual a crítica é reduzida a procedimentos e formas institucionais que limitam sua capacidade de interrogar as bases materiais do poder instituído e da dominação social capitalista.

No ensaio O enigma da Medusa: uma homologia estrutural entre a teoria de Fernando Haddad e a ficção cinematográfica de Kleber Mendonça Filho, DANIEL CUNHA propõe uma leitura comparativa entre o livro Capitalismo superindustrial, de Fernando Haddad, e o filme O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho. Partindo do conceito de homologia estrutural de Lucien Goldmann, o autor argumenta que ambas as obras expressam uma mesma visão de mundo associada à chamada “Medusa”, a classe profissional-gerencial descrita por Francisco de Oliveira. Embora abordem objetos distintos – o capitalismo contemporâneo e a memória da ditadura militar –, as duas produções compartilhariam uma característica fundamental: o ofuscamento da práxis histórica. Na obra de Haddad, a classe gerencial desaparece como sujeito da reprodução do capitalismo; na película de Kleber, a ação política dos personagens surge apenas de forma fragmentária e indireta. O artigo conclui que essa convergência revela os limites da autoconsciência política da classe profissional-gerencial brasileira, capaz de diagnosticar contradições sociais, mas com dificuldade de reconhecer seu próprio papel na sua manutenção ou transformação.

Em Expectativas de formação e experiências de apocalipse: uma breve resenha de Eis aí, o povo brasileiro, THIAGO CANETTIERI destaca a tese de que a ascensão do evangelicalismo e da extrema direita no Brasil deve ser compreendida como expressão de uma transformação profunda da experiência social em um contexto de colapso e fechamento dos horizontes de expectativa. Dialogando com a tradição crítica brasileira, o autor do livro analisado, André Castro, argumenta que o antigo paradigma da formação nacional foi substituído por uma experiência cotidiana marcada pela catástrofe, para a qual a linguagem religiosa apocalíptica oferece sentido, pertencimento e projeto coletivo. A resenha enfatiza a interpretação materialista do autor, segundo a qual a imaginação evangélica não resulta de mera manipulação ideológica, mas constitui uma resposta socialmente enraizada às condições contemporâneas de precarização e desagregação. Nesse quadro, o evangelicalismo emerge como uma das principais formas de articulação política e simbólica do Brasil atual.

Na sequência, em O procurador ungido: sobre a liturgia da lava-jato e seus herdeiros, JAYDER ROGER percorre o momento em que a Lava Jato deixou de habitar apenas os tribunais e a mídia e passou a ocupar também o imaginário religioso evangélico brasileiro. Entre correntes de oração por Sérgio Moro, profecias sobre Deltan Dallagnol e discursos de missão divina contra a corrupção, a operação ganha contornos de guerra espiritual. A narrativa acompanha especialmente o Procurador, que interpreta sua trajetória profissional à luz de chamados proféticos, visões e vocabulários de fé, transformando sua convicção no combate jurídico à corrupção em vocação espiritual. Mais do que um episódio isolado, o ensaio observa como setores evangélicos passaram a ler a política nacional como campo de batalha entre forças morais opostas, onde juízes e procuradores assumem o papel de agentes providenciais. Entre culto, mídia e poder, a Lava Jato aparece como sintoma de um Brasil em que redenção religiosa e justiça institucional passaram a compartilhar a mesma gramática, formalizando uma trincheira espiritual do “Brasil Avivado”.

Em Contrafiguras da prosa em O sol na cabeça: o outro povo de Geovani Martins, CLÁUDIO R. DUARTE e JOÃO VICTOR SILVA abordam um livro de contos importante deste jovem escritor carioca, e que se faz ainda mais fundamental quando se põe a procura pelo “novo povo brasileiro”. É nessas figuras e contrafiguras de sombra, da vida inexpressiva e inoperosa das classes populares, que o artigo capta expressões de necessidades, desejos e astúcia popular. Articulações formais de um texto literário especial, funcionando como voz coletiva de enunciação de comunidades periféricas, ainda pouco pensadas pela crítica, e das quais os autores extraem as contradições vividas por um suproletariado funcional para manter o sistema de negócios, direitos e privilégios dos mais ricos, enquanto O Sol na Cabeça torna-se signo do Zero e da exaustão do trabalho precário, mas também do Nada expressivo de uma negação que um dia poderá advir.   

Em Migração e mercantilização da força de trabalho afro-americana: a mobilidade como mecanismo de subordinação capitalista, PEDRO BARONI FILISETTI YOSHINAGA analisa a Grande Migração afro-americana nos Estados Unidos como expressão das dinâmicas estruturais do capitalismo, afastando interpretações que a reduzem a uma escolha individual por melhores condições de vida. No contexto pós-abolição, a população negra permaneceu submetida à violência racial, à exclusão social e à precarização do trabalho, fatores que impulsionaram seu deslocamento do sul agrário para os centros urbanos do norte, especialmente durante a Primeira Guerra Mundial, quando a expansão industrial ampliou a demanda por mão de obra. Essa inserção, contudo, ocorreu de forma subordinada, com concentração nos níveis mais baixos da estrutura ocupacional, acompanhada por segregação residencial e intensificação de conflitos raciais. A partir das contribuições de Vainer e Gaudemar, a migração é compreendida como elemento constitutivo do capitalismo, vinculada à mercantilização da força de trabalho e à necessidade de sua mobilidade contínua. Nesse sentido, a obra The Migration Series, de Jacob Lawrence, opera como representação crítica das transformações sociais e espaciais associadas a esse processo. A mobilidade afro-americana revela-se, assim, central para a formação do espaço urbano moderno e para a reprodução das relações de exploração e subordinação no sistema capitalista.

Fechamos este número com Futebol espetáculo, de FABIO LUIS BARBOSA DOS SANTOS, que discute a espetacularização do futebol como um negócio global sob o comando da FIFA. Tendo como pano de fundo a crise estrutural do capital analisada por Robert Kurz, o autor argumenta que a televisão cumpriu na sociedade do espetáculo um papel análogo ao que os bancos cumpriram na sociedade industrial, fazendo das imagens produzidas pelo jogo monopolizadas pela FIFA o alicerce de um negócio bilionário global. O texto analisa as consequências deste movimento de fora para dentro, mas também de dentro para fora de campo, em que a racionalização do desempenho dos atletas e da ocupação dos espaços no gramado favoreceu o jogo defensivo, resultando, em última análise, em uma nivelação da diversidade das expressões culturais futebolísticas segundo uma régua europeia.

Julho de 2026

Sumário #19

Editorial

ENTREVISTA
A ascensáo do “nacionalismo de desastre” com Richard Seymour

ARTIGOS

Da crise permanente ao colapso social
Limites da categoria crise e necessidade de uma nova formulação histórica
Gabriel Teles

O conhecimento que não nos toca
Ou ciência sem conhecimento como contradição sistêmica da abstração social
Silas Ferrarini Furtado

A digitalização do “mundo como alvo”
Contribuições à genealogia da militarização contemporânea
Cian Barbosa

Alarme geral do microfascismo, ou, os avatares da nova phantasia fascista
Estudo crítico de A ameaça interna, de Vladimir Safatle
Cláudio R. Duarte

O desentendimento é a política
Por uma reabilitação da luta de classes
Cian Barbosa & Douglas Rodrigues Barros

Habermas
Uma anti-homenagem
Raphael F. Alvarenga

O enigma da Medusa
Uma homologia estrutural entre a teoria de Fernando Haddad
e a ficção cinematográfica de Kleber Mendonça Filho
Daniel Cunha

Expectativas de formação e a experiência do apocalipse
Uma breve resenha de Eis aí, o povo brasileiro
Thiago Canettieri

O procurador ungido
Sobre a liturgia da Lava Jato e seus herdeiros
Jayder Roger

Contrafugas da prosa em O sol na cabeça
O outro povo de Geovani Martins
Cláudio R. Duarte & Joáo Victor Silva

Migração e mercantilização da força de trabalho afro-americana
Pedro Baroni Filisetti Yoshinaga

Futebol espetáculo
Fabio Luis Barbosa dos Santos

Sinal de Menos #18

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Em seu ritmo acelerado em direção ao túnel escuro — uma espécie de caixa preta em que pode haver de tudo, inclusive o nada — a sociedade da mercadoria vai minando os últimos freios da institucionalidade para afirmar as relações de produção em sua versão extremista de pura máquina de exploração sem travas morais, ideológicas ou jurídicas. Não à toa, parece que estamos nos repetindo a cada novo editorial. A dança macabra tem se alastrado a cada ano numa coreografia ainda mais veloz. Esse processo acelerado de degradação social imprime à experiência e ao processo dialético o caráter empobrecido de uma “monotonia abstrata”, tal como identificada pela Dialética negativa de Adorno, cujo remédio, no entanto, era a busca do particular e do negativo: “o que há de doloroso na dialética é a dor em relação a esse mundo, elevada ao âmbito do conceito”.

Chegamos a este novo volume de Sinal de Menos sob o signo de uma aceleração que não é apenas política, mas estrutural e radicalmente concreta, vivida dramaticamente no nível do território local. Os eventos recentes nos oferecem a matéria de uma decomposição que já não se esforça em manter as aparências de “progresso” ou “democracia”. O que observamos hoje é a atualização brutal da forma-Estado em sua nova fase “imperialista” de gestão do capital em sua espiral especulativa viciada no novo LSD da Inteligência Artificial, cujo pano de fundo, no entanto, são cadeias produtivas que vão se especializando no dumping socioambiental e na administração do descarte de população excedente.

As tensões na Venezuela, em Cuba e no Irã, longe de serem conflitos isolados por soberania, revelam o destino das periferias nessa era de emergência. A invasão e a imposição de um novo “protetorado” na Venezuela não visam à restauração democrática, agora nem mesmo como um jogo de aparências, mas sim ao enquadramento forçado de um território em colapso aos interesses estratégicos da produção de energia fóssil barata, no contexto do plano trumpista de contenção da decadência hegemônica dos EUA. Sob a retórica das sanções e da ajuda humanitária, o que se desenha é a figura do Estado-falido transformado em almoxarifado de recursos, onde a população é apenas um resíduo incômodo na equação logística do capital norte-americano. Essa mesma lógica de ameaça de anexação e terra arrasada atinge seu paroxismo no Oriente Médio. O que ocorre em Gaza e na Cisjordânia ultrapassa o conceito clássico de ocupação militar; trata-se de um processo de anexação de fato por meio da aniquilação das condições básicas de reprodução da vida, bem como de extermínio de parte considerável da população local, numa região que, de maneira infortunada, liga corredores logísticos ao Mediterrâneo e também possui petróleo em excesso. A fronteira, aqui, não é apenas geográfica, mas a linha que separa os sujeitos de direito da “vida nua” descartável. A próxima rodada, envolvendo mais petróleo, terras raras e zona tampão geopolítico, pode se tornar a Groenlândia. Como se sabe, a médio prazo a reafirmação da hegemonia estadunidense em tais territórios visa enfraquecer a Rússia e a China. Em meio a tudo isso, a perspectiva da emancipação se perde completamente nas formulações de certa esquerda campista.

Outra face dessa escalada de reafirmação do poder do capital sobre o território se dá na questão do trabalho, como vemos na reforma trabalhista argentina de Javier Milei, que precariza e degrada o trabalhador a puro azeite de um outro Estado praticamente falido. Os grandes incêndios na Patagônia argentina em janeiro deste ano, decorrentes do desmonte dos órgãos de fiscalização e combate a incêndios e do avanço da fronteira agropecuária e turística sobre um bioma florestal frágil, dão o exemplo perfeito da tendência destrutiva em curso. E é o mesmo que se anuncia no debate brasileiro, num Congresso, num STF, numa Procuradoria Geral e numa Mídia sob o comando quase direto dos interesses empresariais de redução de custos com vistas ao suposto ajuste econômico do país à concorrência global, ao que se soma um Ministério do Trabalho que dificulta a fiscalização contra o trabalho escravo. A mesma conversa mole que levou ao “golpeachment” de Dilma, à “Ponte para o Futuro” e à reforma trabalhista de Temer (mantida no governo petista), só que numa versão ainda mais intensificada, que promete finalmente implodir a CLT e a previdência social pública, generalizando a pejotização e a terceirização do trabalho no país. Enquanto isso, a luta pela abolição da escala 6×1 é um ponto de tensão e disputa de classe, respondida pela difusão de análises reacionárias a favor do Capital na grande mídia, em pleno ano eleitoral, catapultando a extrema-direita e sua ideologia conservadora na cabeça dos pobres, que são orientados a pensar como um “sujeito transcendental” dos negócios, como se o setor monopolista do comércio, dos bancos e dos serviços fosse falir (apesar da lucratividade recorde) e o setor competitivo e pequeno burguês de bares e lojas de periferia não conseguisse se ajustar e como se todos não obtivessem ganhos primários e secundários no aumento de tempo livre. A generalização do capital como forma de vida é, por isso mesmo, a generalização do fetichismo da mercadoria e do trabalho. O que também se revela em um Ministério da Fazenda que divulga estatísticas “otimistas” que ofuscam o endividamento das famílias, a superexploração, as populações excedentes e os ajustes deletérios do novo arcabouço fiscal.

No plano doméstico, ainda, a incorporação da Margem Equatorial Amazônica para extração de petróleo e o decreto sobre a hidrovia no rio Tapajós (temporariamente suspenso) – no “decênio decisivo” (Luiz Marques) para as questões referentes ao aquecimento global – ilustram a face extrativista do “capitalismo de fronteira” brasileiro e sua função no mercado mundial. A suspensão não deve ser lida como um recuo “ético” e “ambientalista” do governo Lula ou das megacorporações como a Cargill, mas como um pestanejar da máquina extrativista que busca converter biomas em corredores logísticos para a exportação de valor abstrato na forma de commodities. O rio Tapajós interessa aos tubarões do Capital apenas como uma variável de custo de transporte, ignorando as formas de vida que ali resistem ao processo de subsunção real do que é visto como mera “natureza”. E isso sob a pressão política da agroexportação no seio do frenteamplismo rebaixado, que sempre foi também frente ampla da expansão do capitalismo extrativista no país e de desarticulação de qualquer formação crítica. Assim, não podemos deixar de saudar a não-adesão daqueles povos originários que, após quinhentos anos de violência, se recusaram a aceitar mais uma, forçando um recuo do complexo agro-estatal, ao menos por enquanto e ainda que localizado.

Neste número, os artigos aqui reunidos buscam descascar essas camadas de eventos para atingir o núcleo da crise: o fato de que o capitalismo, em seu limite histórico, já não consegue integrar, apenas cercar, excluir e destruir – mas sem deixar de explorar trabalho sob condições cada vez mais degradadas.

A capa de FELIPE DRAGO foi composta a partir de uma foto icônica do Coletivo Apoena Audiovisual durante o 8º. Grito Ancestral no Rio Tapajós, no Pará, em novembro de 2025.

Contamos com uma Entrevista com ANDREAS MALM realizada pelo sociólogo Bernardo Jurema. Malm, professor na Universidade de Lund, consolidou-se como um dos intelectuais mais influentes e vigiados da esquerda ecológica. Sua obra, que inclui o célebre How to Blow Up a Pipeline: Learning to Fight in a World on Fire (infelizmente indisponível em português), atraiu a atenção do FBI não por oferecer manuais de sabotagem, mas por sua análise rigorosa do capital fóssil e pela defesa de que o movimento climático deve diversificar suas táticas de resistência. Após a onda de protestos de 2018-2019, Malm apresenta um diagnóstico sombrio em obras recentes como Overshoot (2024). Ele argumenta que o mundo está prestes a ultrapassar o limite de 1,5°C do Acordo de Paris, caminhando para um aumento de 3°C a 5°C. Malm critica duramente o Norte Global, responsável por 92% das emissões excedentes, e conecta a exploração fóssil à lógica imperialista, traçando paralelos entre a destruição climática e a devastação da Palestina. Para Malm, a escolha é definitiva: ou mudamos radicalmente o sistema, ou aceitamos o colapso. Para isso, ele defende uma resistência intransigente por parte do movimento climático.

Em A indiferença como forma: uma conversa sobre O agente secreto de Kleber Mendonça Filho, CLÁUDIO R. DUARTE, DANIEL CUNHA, FREDERICO LYRA e RAPHAEL F. ALVARENGA discutem o filme brasileiro que vem recebendo os holofotes neste ano após indicações para premiações internacionais. O que distingue essa investigação, além da forma diacrônica do diálogo, é o fio que une todas as posições – nem uma análise meramente formalista e nem simplesmente temática, mas dialética, mediando forma, conteúdo e realidade social, para extrair da obra o seu significado histórico e conteúdo de verdade. Entendemos que essa historicização materialista do objeto revela aspectos que ficam de outra maneira ofuscados.

O ensaio de RAPHAEL F. ALVARENGA, Recomposição de classe e esfera pública: perspectivas da experiência alemã recente, interpreta a fragmentação da classe trabalhadora na Alemanha pós-reunificação como condição decisiva para a ascensão recente da extrema direita, sobretudo no leste do país. O desmonte de instituições coletivas – sindicatos enfraquecidos, espaços culturais mercantilizados, sociabilidades dissolvidas – não gerou apenas precariedade, mas um vazio de experiência e pertencimento, que foi sendo preenchido pela nova direita enquanto parte da esquerda ia substituído a crítica da exploração por uma política focada na identidade. O autor contesta ainda o diagnóstico do “fim da política de classe” – muito mais do que no passado, a classe trabalhadora hoje se recompõe sob condições de heterogeneidade e insegurança estrutural –, argumentando que a alternativa ao neofascismo não reside nem no culturalismo moralizante nem em seu espelho nacional-conservador, mas na democratização do poder econômico e na reconstrução de esferas públicas oposicionais enraizadas na vida material, onde a solidariedade deixe de ser palavra edificante e volte a se tornar prática social efetiva.

No terceiro artigo, O sino que toca e a crítica que resta — Entre dois Robertos: um encontro no posto avançado da crise global, CLÁUDIO R. DUARTE retoma os vasos comunicantes entre Roberto Schwarz e Robert Kurz, que parecem caminhar sempre meio juntos, meio separados, como que por pistas paralelas, divergindo no sentido, no modo e na ênfase da “crítica que resta” em meio ao “fracasso da modernização”. Uma visão macrológica para as tendências destrutivas do capital e uma visão micrológica para o particular em contradição, enfatizada sobretudo por Schwarz, dá os contornos dessa constelação crítica privilegiada que aqui tivemos. O texto é uma versão ajustada e levemente ampliada de um artigo publicado em No rastro do colapso – reflexões sobre a obra de Robert Kurz (Consequência, 2024), livro organizado por Marcos Barreira e Maurílio L. Botelho, aos quais o autor mais uma vez agradece.

Em um curto ensaio, Adorno e o abandono da composição, FREDERICO LYRA busca levantar algumas hipóteses em torno das razões ao mesmo tempo musicais, intelectuais e psicológicas de Theodor W. Adorno ter abandonado a prática da composição musical precisamente em 1945, coincidindo assim com o final da Segunda Guerra Mundial.

No artigo seguinte, No laboratório baudelairiano da crise moderna — Alguns apontamentos, JOÃO PEDRO HENRIQUES DE CASTRO MORAIS relê a lírica de Charles Baudelaire como criptografia da experiência metropolitana no século XIX. Costurando as perspectivas de Walter Benjamin — focado na dialética do choque e na perda da experiência (Erfahrung) — e de Dolf Oehler — que enfatiza a alegoria política pós-1848 —, o autor aponta como a Paris de Haussmann se torna o cenário de lutas e de uma catástrofe permanente. No texto, a poesia deixa de ser ornamento para tornar-se o registro da “monotonia abstrata” do capital: um mundo de novidades reificadas onde o novo já nasce como ruína alegórica. Ao analisar poemas como A uma passante e O Cisne, Morais revela como a “estética do choque” baudelairiana traduz a transição para um novo tempo de subjetividade sitiada numa metrópole que se converte em espaço privilegiado de luta política.

No texto de HENRIQUE VALLE, O Brasil ainda precisa ser inventado – Considerações sobre o programa olavista, o autor realiza uma anatomia rigorosa do programa do ideólogo brasileiro de extrema direita, Olavo de Carvalho. Aponta como o blogueiro-astrólogo dublê de filósofo sofisticou a matriz intelectual do reacionarismo militar brasileiro ao importar o “gramscismo” de direita francês, o decisionismo de Carl Schmitt e a metapolítica de Julius Évola, no sentido de pensar uma “revolução conservadora”. O texto demonstra que o projeto olavista não foi um delírio anticomunista isolado, mas uma estratégia deliberada de “guerra cultural” desenhada para ocupar os aparelhos de hegemonia e preparar o terreno para um “projeto golpista de origem militar por meio de um resgate das contribuições da revolução conservadora”.

Finalizamos com uma coleção de textos do sociólogo francês LUCIEN GOLDMANN (1913-1970): A epistemologia da sociologia, Teses sobre o uso do conceito de visão de mundo na história da filosofia, A estética do jovem Lukács e Discussão em Royaumont (entre Theodor W. Adorno e Lucien Goldmann). Na apresentação do tradutor Daniel Cunha, traça-se brevemente a biografia intelectual de Goldmann, cuja obra é uma síntese inovadora de Jean Piaget e do jovem Lukács, influenciando desde Guy Debord até um cientista que foi importante no desenvolvimento da ciência climática que hoje ajuda a denunciar a destrutividade do capital à escala da estabilidade planetária. Os textos selecionados têm ênfase em questões de teoria e método, com destaque para seus conceitos de visão de mundo e da dialética de compreensão e explicação, incluindo um diálogo de fôlego com Adorno em torno desta última. O tradutor entende que as questões trazidas por Goldmann podem ajudar na formação de uma consciência crítica e no mapeamento cognitivo da história e crise do capital.

28 de fevereiro de 2026

Sumário #18

Editorial

ENTREVISTA
Resistência intransigente com Andreas Malm

ARTIGOS

A indiferença como forma
Uma conversa sobre “O agente secreto”, de Kleber Mendonça Filho
Cláudio R. Duarte, Daniel Cunha, Frederico Lyra e Raphael F. Alvarenga

Recomposição de classe e esfera pública
Perspectivas da experiência alemã recente
Raphael F. Alvarenga

O sino que toca e a crítica que resta
Entre dois Robertos: um encontro no posto avançado da crise global
Cláudio R. Duarte

No laboratório baudelairiano da crise moderna
Alguns apontamentos
João Pedro Henriques de Castro Morais

Adorno e o abandono da composição
Frederico Lyra

O Brasil ainda precisa ser inventado
Considerações sobre o programa olavista
Henrique Valle

DOSSIER GOLDMANN

Nota introdutória
Lucien Goldmann: questões de teoria e método para uma sociologia dialética
Daniel Cunha

A epistemologia da sociologia
Lucien Goldmann

Teses sobre o uso do conceito de visão de mundo na história da filosofia
Lucien Goldmann

A estética do jovem Lukács
Lucien Goldmann

Discussão em Royaumont
Theodor W. Adorno e Lucien Goldmann

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