Sinal de Menos #18

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Em seu ritmo acelerado em direção ao túnel escuro — uma espécie de caixa preta em que pode haver de tudo, inclusive o nada — a sociedade da mercadoria vai minando os últimos freios da institucionalidade para afirmar as relações de produção em sua versão extremista de pura máquina de exploração sem travas morais, ideológicas ou jurídicas. Não à toa, parece que estamos nos repetindo a cada novo editorial. A dança macabra tem se alastrado a cada ano numa coreografia ainda mais veloz. Esse processo acelerado de degradação social imprime à experiência e ao processo dialético o caráter empobrecido de uma “monotonia abstrata”, tal como identificada pela Dialética negativa de Adorno, cujo remédio, no entanto, era a busca do particular e do negativo: “o que há de doloroso na dialética é a dor em relação a esse mundo, elevada ao âmbito do conceito”.

Chegamos a este novo volume de Sinal de Menos sob o signo de uma aceleração que não é apenas política, mas estrutural e radicalmente concreta, vivida dramaticamente no nível do território local. Os eventos recentes nos oferecem a matéria de uma decomposição que já não se esforça em manter as aparências de “progresso” ou “democracia”. O que observamos hoje é a atualização brutal da forma-Estado em sua nova fase “imperialista” de gestão do capital em sua espiral especulativa viciada no novo LSD da Inteligência Artificial, cujo pano de fundo, no entanto, são cadeias produtivas que vão se especializando no dumping socioambiental e na administração do descarte de população excedente.

As tensões na Venezuela, em Cuba e no Irã, longe de serem conflitos isolados por soberania, revelam o destino das periferias nessa era de emergência. A invasão e a imposição de um novo “protetorado” na Venezuela não visam à restauração democrática, agora nem mesmo como um jogo de aparências, mas sim ao enquadramento forçado de um território em colapso aos interesses estratégicos da produção de energia fóssil barata, no contexto do plano trumpista de contenção da decadência hegemônica dos EUA. Sob a retórica das sanções e da ajuda humanitária, o que se desenha é a figura do Estado-falido transformado em almoxarifado de recursos, onde a população é apenas um resíduo incômodo na equação logística do capital norte-americano. Essa mesma lógica de ameaça de anexação e terra arrasada atinge seu paroxismo no Oriente Médio. O que ocorre em Gaza e na Cisjordânia ultrapassa o conceito clássico de ocupação militar; trata-se de um processo de anexação de fato por meio da aniquilação das condições básicas de reprodução da vida, bem como de extermínio de parte considerável da população local, numa região que, de maneira infortunada, liga corredores logísticos ao Mediterrâneo e também possui petróleo em excesso. A fronteira, aqui, não é apenas geográfica, mas a linha que separa os sujeitos de direito da “vida nua” descartável. A próxima rodada, envolvendo mais petróleo, terras raras e zona tampão geopolítico, pode se tornar a Groenlândia. Como se sabe, a médio prazo a reafirmação da hegemonia estadunidense em tais territórios visa enfraquecer a Rússia e a China. Em meio a tudo isso, a perspectiva da emancipação se perde completamente nas formulações de certa esquerda campista.

Outra face dessa escalada de reafirmação do poder do capital sobre o território se dá na questão do trabalho, como vemos na reforma trabalhista argentina de Javier Milei, que precariza e degrada o trabalhador a puro azeite de um outro Estado praticamente falido. Os grandes incêndios na Patagônia argentina em janeiro deste ano, decorrentes do desmonte dos órgãos de fiscalização e combate a incêndios e do avanço da fronteira agropecuária e turística sobre um bioma florestal frágil, dão o exemplo perfeito da tendência destrutiva em curso. E é o mesmo que se anuncia no debate brasileiro, num Congresso, num STF, numa Procuradoria Geral e numa Mídia sob o comando quase direto dos interesses empresariais de redução de custos com vistas ao suposto ajuste econômico do país à concorrência global, ao que se soma um Ministério do Trabalho que dificulta a fiscalização contra o trabalho escravo. A mesma conversa mole que levou ao “golpeachment” de Dilma, à “Ponte para o Futuro” e à reforma trabalhista de Temer (mantida no governo petista), só que numa versão ainda mais intensificada, que promete finalmente implodir a CLT e a previdência social pública, generalizando a pejotização e a terceirização do trabalho no país. Enquanto isso, a luta pela abolição da escala 6×1 é um ponto de tensão e disputa de classe, respondida pela difusão de análises reacionárias a favor do Capital na grande mídia, em pleno ano eleitoral, catapultando a extrema-direita e sua ideologia conservadora na cabeça dos pobres, que são orientados a pensar como um “sujeito transcendental” dos negócios, como se o setor monopolista do comércio, dos bancos e dos serviços fosse falir (apesar da lucratividade recorde) e o setor competitivo e pequeno burguês de bares e lojas de periferia não conseguisse se ajustar e como se todos não obtivessem ganhos primários e secundários no aumento de tempo livre. A generalização do capital como forma de vida é, por isso mesmo, a generalização do fetichismo da mercadoria e do trabalho. O que também se revela em um Ministério da Fazenda que divulga estatísticas “otimistas” que ofuscam o endividamento das famílias, a superexploração, as populações excedentes e os ajustes deletérios do novo arcabouço fiscal.

No plano doméstico, ainda, a incorporação da Margem Equatorial Amazônica para extração de petróleo e o decreto sobre a hidrovia no rio Tapajós (temporariamente suspenso) – no “decênio decisivo” (Luiz Marques) para as questões referentes ao aquecimento global – ilustram a face extrativista do “capitalismo de fronteira” brasileiro e sua função no mercado mundial. A suspensão não deve ser lida como um recuo “ético” e “ambientalista” do governo Lula ou das megacorporações como a Cargill, mas como um pestanejar da máquina extrativista que busca converter biomas em corredores logísticos para a exportação de valor abstrato na forma de commodities. O rio Tapajós interessa aos tubarões do Capital apenas como uma variável de custo de transporte, ignorando as formas de vida que ali resistem ao processo de subsunção real do que é visto como mera “natureza”. E isso sob a pressão política da agroexportação no seio do frenteamplismo rebaixado, que sempre foi também frente ampla da expansão do capitalismo extrativista no país e de desarticulação de qualquer formação crítica. Assim, não podemos deixar de saudar a não-adesão daqueles povos originários que, após quinhentos anos de violência, se recusaram a aceitar mais uma, forçando um recuo do complexo agro-estatal, ao menos por enquanto e ainda que localizado.

Neste número, os artigos aqui reunidos buscam descascar essas camadas de eventos para atingir o núcleo da crise: o fato de que o capitalismo, em seu limite histórico, já não consegue integrar, apenas cercar, excluir e destruir – mas sem deixar de explorar trabalho sob condições cada vez mais degradadas.

A capa de FELIPE DRAGO foi composta a partir de uma foto icônica do Coletivo Apoena Audiovisual durante o 8º. Grito Ancestral no Rio Tapajós, no Pará, em novembro de 2025.

Contamos com uma Entrevista com ANDREAS MALM realizada pelo sociólogo Bernardo Jurema. Malm, professor na Universidade de Lund, consolidou-se como um dos intelectuais mais influentes e vigiados da esquerda ecológica. Sua obra, que inclui o célebre How to Blow Up a Pipeline: Learning to Fight in a World on Fire (infelizmente indisponível em português), atraiu a atenção do FBI não por oferecer manuais de sabotagem, mas por sua análise rigorosa do capital fóssil e pela defesa de que o movimento climático deve diversificar suas táticas de resistência. Após a onda de protestos de 2018-2019, Malm apresenta um diagnóstico sombrio em obras recentes como Overshoot (2024). Ele argumenta que o mundo está prestes a ultrapassar o limite de 1,5°C do Acordo de Paris, caminhando para um aumento de 3°C a 5°C. Malm critica duramente o Norte Global, responsável por 92% das emissões excedentes, e conecta a exploração fóssil à lógica imperialista, traçando paralelos entre a destruição climática e a devastação da Palestina. Para Malm, a escolha é definitiva: ou mudamos radicalmente o sistema, ou aceitamos o colapso. Para isso, ele defende uma resistência intransigente por parte do movimento climático.

Em A indiferença como forma: uma conversa sobre O agente secreto de Kleber Mendonça Filho, CLÁUDIO R. DUARTE, DANIEL CUNHA, FREDERICO LYRA e RAPHAEL F. ALVARENGA discutem o filme brasileiro que vem recebendo os holofotes neste ano após indicações para premiações internacionais. O que distingue essa investigação, além da forma diacrônica do diálogo, é o fio que une todas as posições – nem uma análise meramente formalista e nem simplesmente temática, mas dialética, mediando forma, conteúdo e realidade social, para extrair da obra o seu significado histórico e conteúdo de verdade. Entendemos que essa historicização materialista do objeto revela aspectos que ficam de outra maneira ofuscados.

O ensaio de RAPHAEL F. ALVARENGA, Recomposição de classe e esfera pública: perspectivas da experiência alemã recente, interpreta a fragmentação da classe trabalhadora na Alemanha pós-reunificação como condição decisiva para a ascensão recente da extrema direita, sobretudo no leste do país. O desmonte de instituições coletivas – sindicatos enfraquecidos, espaços culturais mercantilizados, sociabilidades dissolvidas – não gerou apenas precariedade, mas um vazio de experiência e pertencimento, que foi sendo preenchido pela nova direita enquanto parte da esquerda ia substituído a crítica da exploração por uma política focada na identidade. O autor contesta ainda o diagnóstico do “fim da política de classe” – muito mais do que no passado, a classe trabalhadora hoje se recompõe sob condições de heterogeneidade e insegurança estrutural –, argumentando que a alternativa ao neofascismo não reside nem no culturalismo moralizante nem em seu espelho nacional-conservador, mas na democratização do poder econômico e na reconstrução de esferas públicas oposicionais enraizadas na vida material, onde a solidariedade deixe de ser palavra edificante e volte a se tornar prática social efetiva.

No terceiro artigo, O sino que toca e a crítica que resta — Entre dois Robertos: um encontro no posto avançado da crise global, CLÁUDIO R. DUARTE retoma os vasos comunicantes entre Roberto Schwarz e Robert Kurz, que parecem caminhar sempre meio juntos, meio separados, como que por pistas paralelas, divergindo no sentido, no modo e na ênfase da “crítica que resta” em meio ao “fracasso da modernização”. Uma visão macrológica para as tendências destrutivas do capital e uma visão micrológica para o particular em contradição, enfatizada sobretudo por Schwarz, dá os contornos dessa constelação crítica privilegiada que aqui tivemos. O texto é uma versão ajustada e levemente ampliada de um artigo publicado em No rastro do colapso – reflexões sobre a obra de Robert Kurz (Consequência, 2024), livro organizado por Marcos Barreira e Maurílio L. Botelho, aos quais o autor mais uma vez agradece.

Em um curto ensaio, Adorno e o abandono da composição, FREDERICO LYRA busca levantar algumas hipóteses em torno das razões ao mesmo tempo musicais, intelectuais e psicológicas de Theodor W. Adorno ter abandonado a prática da composição musical precisamente em 1945, coincidindo assim com o final da Segunda Guerra Mundial.

No artigo seguinte, No laboratório baudelairiano da crise moderna — Alguns apontamentos, JOÃO PEDRO HENRIQUES DE CASTRO MORAIS relê a lírica de Charles Baudelaire como criptografia da experiência metropolitana no século XIX. Costurando as perspectivas de Walter Benjamin — focado na dialética do choque e na perda da experiência (Erfahrung) — e de Dolf Oehler — que enfatiza a alegoria política pós-1848 —, o autor aponta como a Paris de Haussmann se torna o cenário de lutas e de uma catástrofe permanente. No texto, a poesia deixa de ser ornamento para tornar-se o registro da “monotonia abstrata” do capital: um mundo de novidades reificadas onde o novo já nasce como ruína alegórica. Ao analisar poemas como A uma passante e O Cisne, Morais revela como a “estética do choque” baudelairiana traduz a transição para um novo tempo de subjetividade sitiada numa metrópole que se converte em espaço privilegiado de luta política.

No texto de HENRIQUE VALLE, O Brasil ainda precisa ser inventado – Considerações sobre o programa olavista, o autor realiza uma anatomia rigorosa do programa do ideólogo brasileiro de extrema direita, Olavo de Carvalho. Aponta como o blogueiro-astrólogo dublê de filósofo sofisticou a matriz intelectual do reacionarismo militar brasileiro ao importar o “gramscismo” de direita francês, o decisionismo de Carl Schmitt e a metapolítica de Julius Évola, no sentido de pensar uma “revolução conservadora”. O texto demonstra que o projeto olavista não foi um delírio anticomunista isolado, mas uma estratégia deliberada de “guerra cultural” desenhada para ocupar os aparelhos de hegemonia e preparar o terreno para um “projeto golpista de origem militar por meio de um resgate das contribuições da revolução conservadora”.

Finalizamos com uma coleção de textos do sociólogo francês LUCIEN GOLDMANN (1913-1970): A epistemologia da sociologia, Teses sobre o uso do conceito de visão de mundo na história da filosofia, A estética do jovem Lukács e Discussão em Royaumont (entre Theodor W. Adorno e Lucien Goldmann). Na apresentação do tradutor Daniel Cunha, traça-se brevemente a biografia intelectual de Goldmann, cuja obra é uma síntese inovadora de Jean Piaget e do jovem Lukács, influenciando desde Guy Debord até um cientista que foi importante no desenvolvimento da ciência climática que hoje ajuda a denunciar a destrutividade do capital à escala da estabilidade planetária. Os textos selecionados têm ênfase em questões de teoria e método, com destaque para seus conceitos de visão de mundo e da dialética de compreensão e explicação, incluindo um diálogo de fôlego com Adorno em torno desta última. O tradutor entende que as questões trazidas por Goldmann podem ajudar na formação de uma consciência crítica e no mapeamento cognitivo da história e crise do capital.

28 de fevereiro de 2025

Sumário #18

Editorial

ENTREVISTA
Resistência intransigente com Andreas Malm

ARTIGOS

A indiferença como forma
Uma conversa sobre “O agente secreto”, de Kleber Mendonça Filho
Cláudio R. Duarte, Daniel Cunha, Frederico Lyra e Raphael F. Alvarenga

Recomposição de classe e esfera pública
Perspectivas da experiência alemã recente
Raphael F. Alvarenga

O sino que toca e a crítica que resta
Entre dois Robertos: um encontro no posto avançado da crise global
Cláudio R. Duarte

No laboratório baudelairiano da crise moderna
Alguns apontamentos
João Pedro Henriques de Castro Morais

Adorno e o abandono da composição
Frederico Lyra

O Brasil ainda precisa ser inventado
Considerações sobre o programa olavista
Henrique Valle

DOSSIER GOLDMANN

Nota introdutória
Lucien Goldmann: questões de teoria e método para uma sociologia dialética
Daniel Cunha

A epistemologia da sociologia
Lucien Goldmann

Teses sobre o uso do conceito de visão de mundo na história da filosofia
Lucien Goldmann

A estética do jovem Lukács
Lucien Goldmann

Discussão em Royaumont
Theodor W. Adorno e Lucien Goldmann

Sinal de Menos #17


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A situação mundial foi poucas vezes tão complexa. Por um lado, assistimos ao crescimento exponencial de conflitos, bélicos ou não, entre Estados e no interior deles, em todos os continentes, por outro, uma nova fase de tecnologização da realidade baseia-se numa configuração da técnica que, ao invés de ser a tradução de novos valores que impulsionem a superação do trabalho alienado (Marcuse), tendem a reforçar a sua perpetuação violenta na era mesma do seu anacronismo: guerras (drones), novo estágio de desemprego estrutural via automação dos processos cognitivos (IA), vigilância generalizada (algoritmos, redes sociais). Gaza atualizou o genocídio e a destruição de um território. Nesse imbróglio a extrema direita conservadora e protofascista (quando não efetivamente fascista) continua a sua ligeira ascensão em estreita relação com uma esquerda que não apenas não combate suas causas efetivas na base nem nas ruas, como tem encarnado o último alicerce da velha ordem neoliberal definhante, enquanto pululam teorizações degradadas que elidem as questões fundamentais: capital e sua crise, e classe e sua perspectiva de autossuperação. É nesse contexto que nos abstemos de um editorial mais detalhado: a situação do planeta e o estágio atual da crise do sistema capitalista exigiriam uma atualização da teoria crítica e das organizações não-conformistas que incorporasse estes aspectos, o que demanda uma elaboração coletiva e internacional, com uma esquerda majoritariamente precarizada, como na época de Marx, embora desta vez assombrada pelo seu passado e futuro. Os textos reunidos no presente volume abordam algumas destas questões. A capa de FELIPE DRAGO, composta a partir de fotografia de autor desconhecido, busca retratar esse momento, apontando tanto para o passado quanto para o futuro, tanto para o anjo da história quanto para o freio de emergência.

Numa entrevista ampla e reflexiva, NEIL LARSEN, crítico literário e teórico norte-americano, discute a trajetória pessoal, intelectual e política que moldou seu engajamento de décadas com a literatura latino-americana, o marxismo e a teoria crítica. Desde seus anos acadêmicos formativos no meio-oeste dos Estados Unidos até seu vínculo duradouro com o Brasil – especialmente São Paulo e o legado de Roberto Schwarz – Larsen traça um percurso marcado por um compromisso profundo com a crítica dialética e imanente. Ao longo do caminho, relembra encontros-chave com figuras como Robert Krueger e Moishe Postone, além de oferecer críticas contundentes às tendências acadêmicas contemporâneas, incluindo a ascensão do discurso reacionário da decolonialidade. A conversa culmina em reflexões sobre a pedagogia, os desafios do ensino da teoria e um ambicioso projeto teórico em andamento sobre mimese e valor. Ao mesmo tempo autobiográfica e analítica, a entrevista é um testemunho de uma vida dedicada a uma erudição politicamente comprometida e intelectualmente rigorosa.

Traduzimos em seguida dois ensaios de LARSEN. O primeiro, Forma objetiva e “dissonância reveladora” n’As aventuras de Huckleberry Finn: uma leitura schwarziana experimental de Mark Twain, reexamina o clássico dos clássicos da literatura norte-americana a partir do conceito de “forma objetiva”, tal como desenvolvido por Roberto Schwarz a partir de Adorno. Em vez de tratar o final controverso do romance apenas como uma falha narrativa, a análise investiga como suas contradições formais refletem tensões sociais e históricas da América pós-Reconstrução, um caso de “dissonância reveladora” mais do que de inconsistência artística. A jornada paradoxal, em que a fuga da escravidão leva de volta à reescravização, espelha possibilidades frustradas de solidariedade de classe inter-racial, especialmente entre brancos pobres e negros escravizados. Com base em estudos sobre a repressão de classe no Sul escravista, o ensaio interpreta a relação entre Huck e Jim como um vislumbre utópico dessa solidariedade, sistematicamente sabotada pelas classes proprietárias, enquanto a figura de “Pap” Finn, o pai de Huck, é lida como tipificação da reação conservadora estadunidense, conferindo ao romance uma inesperada relevância contemporânea.

O segundo ensaio, Borges como realista, propõe uma interpretação inovadora de Jorge Luis Borges, desafiando a visão predominante que o posiciona exclusivamente no campo do modernismo literário. Ao analisar o conto “Funes, o memorioso”, Larsen identifica uma vertente realista na obra de Borges, caracterizada por uma atenção meticulosa aos detalhes regionais, culturais e históricos. Essa abordagem realista não se limita a uma mera representação mimética, mas manifesta-se através de uma narrativa que, embora fantástica, revela um profundo conhecimento da realidade local. Utilizando o conceito de “ideia fora de lugar” de Roberto Schwarz, o autor mostra como Borges emprega deslocamentos para questionar estruturas sociais e culturais, oferecendo uma visão mais complexa que une realismo e fantasia em sua escrita.

Noutro ensaio sobre o escritor argentino, “Tempo de lobos, tempo de espadas” – Nos porões de Tlön: idealismo feroz e estado de exceção permanente em Borges, CLÁUDIO R. DUARTE dialoga com o texto precedente, assinado por Larsen, bem como com “Uma poética da abstração”, artigo de William Augusto Silva publicado anteriormente em Sinal de Menos (#15, v. 1). Através da leitura de alguns textos variados da obra de Borges, emerge de fato um Borges “materialista”, mas caracterizado por um “realismo” complexo e de segunda ordem: um “idealismo feroz” que opera em elevado nível de abstração, generalização e ideologia de fundo conservador, pendendo para uma moral individualista e civilizatória, como simples contenção de danos. No entanto, sustenta o autor, tal estrutura literária é anticonservadora, pois é um contínuo processo de mediação e mescla de formas literárias acumuladas e reconstruídas pelo artista através da internalização formal de materiais históricos, que remetem aos processos violentos de fundação nacional argentina e latino-americana, à instauração do espaço abstrato das metrópoles, do capital e do trabalho como reino de “abstrações reais”, cujo desfecho global foi, tal como captado por Borges após a 1ª Guerra Mundial, a lógica de um estado de exceção permanente em escala mundial. Daí portanto emerge o “idealismo feroz” borgeano de “Tlön” e outros contos fantásticos: como crítica a esta lógica de abstração fantasmagórica e de bando soberano secreto, infame e pseudo-sacralizado que, do caudilhismo ao nazifascismo, tem buscado instaurar a “espada” da lei de exceção contra todo outro convertido em “lobo”, homem-fera, vida nua infame e exterminável.

Na sequência, em Metástase da superestrutura: a decolonialidade como sintoma, RAPHAEL F. ALVARENGA examina como a teoria decolonial, em sua forma hegemônica, cristalizou-se numa ortodoxia moralista, centrada na identidade como performance e marcada pela proliferação de uma “polícia decolonial” pautada numa concepção reificada de “lugar de fala”. Amalgamando histórias heterogêneas – das lutas pela independência na América Latina à descolonização africana e ao pós-colonialismo no sul da Ásia – numa grande narrativa, a dita teoria, em grande parte repaginação de tropos pós-estruturalistas e pós-coloniais (como a ideia de que o conhecimento é historicamente situado, vinculado ao poder e moldado pelas histórias coloniais) consolidou-se nas últimas décadas como marca acadêmica global, embora extrapole em muito os muros da universidade. Ao conceber a história como disputa entre sistemas de conhecimento, privilegiar essencialismos identitários e afetos de ressentimento em detrimento de uma análise rigorosa das estruturas sociais e das correlações de forças políticas em presença, e ao defender uma desvinculação do ideário libertário ocidental em vez do enfrentamento direto ao capitalismo, a atual ideologia decolonial não apenas bloqueia os caminhos para a solidariedade de classe – interracial e internacional – como também abre espaço para alianças altamente questionáveis. Dentre os temas tratados pelo autor, destacam-se as controvérsias dos cancelamentos, as limitações inerentes ao paradigma interseccional, os pressupostos linguísticos duvidosos, as ambivalências das fronteiras culturais fetichizadas, bem como a instrumentalização do Ocidente como espantalho ideológico.

Em Dos motoqueiros rebeldes à espiã em lágrimas: a tragédia da classe profissional-gerencial no cinema de Kathryn Bigelow, DANIEL CUNHA investiga a obra da cineasta estadunidense como uma totalidade histórica, defendendo – à luz da extensão do jovem Lukács desenvolvida por Lucien Goldmann, segundo a qual toda “visão de mundo” emerge da posição de um grupo social em uma situação histórica determinada – que ela expressa a visão de mundo da classe profissional-gerencial (CPG). O autor recorre também à interpretação dialética de Fredric Jameson e às teorias psicanalíticas de Herbert Marcuse e Christopher Lasch para traçar uma transformação ao longo dos filmes de Bigelow: de representações iniciais de comunidades marginais (marcuseanas) e figuras mediadoras, para retratos posteriores dominados por protagonistas com tendências narcísicas, identificando também uma fase de transição. Argumenta-se que a formação marxista-maoísta inicial de Bigelow continua a moldar as estruturas formais de seus filmes, que transitam, paralelamente, da dialética sintética para a dialética negativa. Esta trajetória resulta em uma aporia entre forma dialética e conteúdo moralizante — um impasse mais visível em sua obra pós-11 de setembro. Em vez de entendê-la como inconsistente, o autor a interpreta como sintoma da própria trajetória histórica da CPG nos Estados Unidos. Ao ler os filmes de Bigelow como expressões da consciência da CPG, também se fornece elementos para a discussão da teoria do autor a partir de uma perspectiva sociológica crítica e do papel político desta classe no capitalismo tardio. O artigo conclui especulando sobre o seu próximo filme, de fato atualmente em cartaz nos cinemas, e propondo respostas cinematográficas alternativas às crises contemporâneas.

Também assinado por DANIEL CUNHA, Teses sobre o trumpismo: crise do capital, falência da esquerda e neofascismo busca interpretar o que significa a ascensão de Donald Trump a partir de uma perspectiva histórico-mundial. O autor sustenta que as políticas liberais praticadas por democratas prepararam o terreno para o trumpismo, que pode agir como “agitador” enquanto não era afetado pelo “pânico moral” praticado pelos democratas. Em outra camada de tempo, o autor sustenta que o trumpismo é a terceira iteração, em nível mais elevado, do negacionismo de crise, que iniciou com Richard Nixon e o fim do padrão-ouro nos anos 70, que sinalizou o “anacronismo do valor”, e passou pelo projeto de hegemonia dos neocons. Esse negacionismo de crise já produziu catástrofes – no Vietnã, no Iraque – e as está produzindo novamente, de uma maneira que ficará mais clara apenas com mais perspectiva histórica. O antídoto contra os agitadores então seria a consciência de classe internacionalista, que se faz urgente inclusive para evitar uma terceira guerra mundial.

Em Indústria, lógica e guerra cultural, FREDERICO LYRA retoma o conceito frankfurtiano de indústria cultural em nova chave de leitura no intuito de estendê-lo em duas outras direções através do eixo constitutivo comum do conceito contemporâneo de cultural. Indústria cultural, lógica cultural e guerra cultural formam assim uma constelação. Demonstra-se que noção de indústria cultural, cunhada por Adorno, abarca para além do problema da arte, mas refere-se à administração e padronização de toda a produção cultural como mercadoria. A partir do pós-guerra, o capitalismo tardio consolidou-se como lógica cultural, tal qual identificado por Fredric Jameson, naturalizando sua dominação pela estetização da vida e pela integração total entre base e superestrutura. No presente, arte e cultura operam como engrenagens do capitalismo artista, marcado pela superprodução e irrelevância crítica. A radicalização desse processo aparece na noção de guerras culturais, conflitos em torno de valores e identidades que fragmentam as democracias contemporâneas. O mundo virtual torna-se campo privilegiado dessas disputas, em que representação e realidade se confundem, mas tenta-se mostrar que as guerras culturais apontam para além do virtual incidindo no real.

Fechamos a seção de artigos com Uma nova arte cortesã?, texto inédito de ANSELM JAPPE, que problematiza a oposição clássica entre “cultura erudita”, entendida como instrumento da dominação burguesa, e “cultura popular”, celebrada como expressão dos subalternos. Jappe demonstra que ambas se encontram hoje submetidas à lógica mercantil. As vanguardas do século XX, outrora insurgentes, foram assimiladas pelo capitalismo, de modo que a arte contemporânea converteu-se em “arte de corte”, a serviço das elites financeiras e de marcas de luxo, reduzindo a transgressão a estratégia de marketing. Dinâmica semelhante atinge manifestações como o rap e a street art que, embora frequentemente apresentadas como resistência cultural, são incorporadas ao mercado global na forma de mercadorias “rebeldes”. Contra tanto o mito progressista da autenticidade da cultura popular quanto a farsa transgressiva da arte contemporânea, Jappe indica duas possibilidades de contestação: práticas culturais desenvolvidas fora dos circuitos industriais (produção artesanal, iniciativas comunitárias) e a reapropriação crítica do patrimônio cultural, capaz de desencadear experiências formativas e resistir à padronização do imaginário imposta pelo capitalismo digital.

Encerramos esta edição com um poema sem título, sobre Gaza, da pluma de YAGO MELLADO, poeta, músico e tradutor espanhol. Os versos evocam um refúgio ilusório além do horizonte, do outro lado de um mar implacável que se revela uma zona fantasma onde todos os vetores de fuga convergem para uma mesma terra devastada: o deserto, que não se limita a se estender, mas prolifera, deixando apenas o zumbido estático da perda e da ruína. Se não há vida possível em Gaza, vida digna do nome, sugere o poeta, tampouco existem saídas para a humanidade: nenhuma brecha por onde escapar à entropia inexorável da ausência de sentido.

Outubro/2025

Sumário #17

Editorial

Entrevista com Neil Larsen

ARTIGOS

Forma objetiva e “dissonância reveladora” n’As aventuras de Huckleberry Finn
Uma leitura schwarziana experimental de Mark Twain
Neil Larsen

Borges como realista
Neil Larsen

Tempo de lobos, tempo de espadas
Nos porões de Tlön: idealismo feroz e estado de exceção permanente em Borges
Cláudio R. Duarte

Metástase da superestrutura
A decolonialidade como sintoma
Raphael F. Alvarenga

Dos motoqueiros rebeldes à espiã em lágrimas
A tragédia da classe profissional-gerencial no cinema de Kathryn Bigelow 
Daniel Cunha

Teses sobre o trumpismo
Crise do capital, falência da esquerda e neofascismo
Daniel Cunha

Indústria, lógica e guerra cultural
Frederico Lyra de Carvalho

Uma nova arte cortesã?
Anselm Jappe

***

Poema sem título
Yago Mellado

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